Grupo nasce na AMAPAR com o propósito de ser uma rede sólida de suporte à saúde integral de colegas, com escuta próxima, cuidado pessoal e empatia

Rômulo Cardoso Quinta, 20 Agosto 2026

Grupo nasce na AMAPAR com o propósito de ser uma rede sólida de suporte à saúde integral de colegas, com escuta próxima, cuidado pessoal e empatia

A preocupação com a saúde integral da magistratura paranaense é pauta mais do que consolidada dentro dos fins associativos propostos na AMAPAR e na Judicemed. O sensível tema, nos últimos anos, passou a ocupar lugar central no debate institucional sobre a valorização da carreira e está aliada à sustentabilidade da prestação jurisdicional. 

 

Um exemplo claro, para além das diversas palestras, encontros da diretoria e demais eventos, todos pautados, também, com abordagem na saúde integral, está na celebração do primeiro ano de atendimentos da Clínica Judicemed. 

 

Dados recentes do Censo do Poder Judiciário revelam um cenário que exige atenção: 58,5% dos magistrados brasileiros se autodeclararam com estresse e 56,2% relataram quadros de ansiedade.

 

 

Cuidado - Nesse contexto, a AMAPAR, ao reafirmar o compromisso com uma pauta ampla de valorização da magistratura, criou um grupo de magistradas e de magistrados que nasceu com o propósito central de criação de uma rede sólida de suporte entre pares. O intuito está em proporcionar às associadas e aos associados um seguro de escuta e fortalecimento em que o cuidado pessoal e a empatia no ambiente de trabalho emergem como pilares fundamentais para o exercício sustentável da função pública. Como destaca o grupo, a sobrecarga de demandas, os impactos emocionais do exercício da jurisdição e a forma como a magistratura é percebida pela sociedade compõem um quadro que demanda escuta, responsabilidade institucional e políticas permanentes de cuidado.

 

A iniciativa com a criação do grupo dialoga com uma compreensão contemporânea do cuidado, reforçada pela Opinião Consultiva n.º 31/25 da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que reconhece dimensões interligadas do direito a ser cuidado, do direito a cuidar e do direito ao autocuidado

 

Como parte dessa política contínua de cuidado, no início de julho deste ano, 26 juízes e juízas paranaenses participaram de uma ação de saúde integral promovida pela AMAPAR. Conduzido pelas psicólogas Fernanda Serpeloni e Débora Noal, o curso contou ainda com a participação de uma antropóloga. A iniciativa teve como propósito central a criação de uma rede sólida de suporte entre pares, proporcionando um espaço seguro de escuta e fortalecimento em que o cuidado pessoal e a empatia no ambiente de trabalho emergiram como pilares fundamentais para o exercício sustentável da função pública.

 

A reflexão ganha ainda mais relevância diante de manifestações de lideranças nacionais da magistratura, que têm alertado para a necessidade de reconhecer que Magistradas e Magistrados, embora investidos de elevadas responsabilidades públicas, são pessoas submetidas a pressões intensas, rotinas exigentes e expectativas constantes.

 

Por fim, o trabalho recuperado e que mais se aproxima de peer support na população jurídica não é um programa entre pares em sentido estrito, mas o uso emergente de supervisão clínica — o dispositivo reflexivo de psicoterapeutas — por advogados na Inglaterra e no País de Gales, buscado explicitamente como suporte para trauma vicário e burnout (Mason, 2024).

 

Na mesma linha, há proposta de prática jurídica trauma-informada (James, 2020) e caracterização qualitativa de como seria um local de trabalho trauma-informado na assistência jurídica (Pike & Rebar, 2024).

 

Em Portugal, registra-se formação em saúde mental dirigida a juízes e magistrados do Ministério Público (Carvalheiro, 2026): formação, não apoio entre pares. Programas judiciais nominados de apoio entre pares (o Judges Helping Judges, o modelo de peer coaching do National Center for State Courts, o J2J de Massachusetts) circulam como literatura cinzenta institucional e não têm avaliação publicada em periódico indexado que a busca tenha recuperado.

 

Os depoimentos dos participantes sintetizam o impacto humano e profissional do encontro que criou a rede de suporte:

 

Nara Meranca Bueno Pereira Pinto e Tatiane Bueno Gomes enfatizaram o vínculo direto entre a saúde do magistrado e a qualidade da prestação jurisdicional. Para Nara, "cuidar da toga começa por cuidar de quem a veste — e nenhuma sentença pesa mais do que o silêncio de quem sofre sozinho". Tatiane complementou ao ressaltar que acolher a vulnerabilidade e priorizar a saúde mental "é o único caminho para sustentar o peso da nossa função e continuar distribuindo justiça com lucidez".

 

Adriana Simette e Juliana Cunha de Oliveira Domingues destacaram a importância do refinamento do olhar e do autocuidado na rotina diária. Adriana observou que o curso permitiu "refinar o olhar para situações que podem ser acolhidas de forma leve e possível", enquanto Juliana lembrou que "olhar para o outro exige o mergulho também no cuidado de si, pois o autocuidado se faz tão necessário para quem lida continuamente com os problemas alheios".

 

Luciana Virmond Cesar e Cesar Consalter abordaram o fortalecimento da empatia e da união entre os colegas. Luciana apontou que "o caminho da cura passa pelo reconhecimento de que precisamos uns dos outros e que demonstrar vulnerabilidades nos torna mais fortes". Na mesma linha, Cesar ressaltou que "a magistratura bem cuidada se revela na união e na sensibilidade entre os colegas", saindo do encontro mais preparado tanto para a função quanto para estender a mão a quem precisa.

 

Stela Maris Perez Rodrigues e Claudio Camargos dos Santos refletiram sobre as transformações práticas e o enfrentamento das pressões da carreira. Stela falou valor prático de "compreender a necessidade do descanso diário para contrapor o alto impacto e o estresse crônico dos conflitos diários", promovendo o acolhimento simples e o pertencimento. Por fim, Claudio definou o evento como "um marco pessoal e profissional", do qual saiu "completamente renovado e fortalecido para novos desafios".

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